Quando a geada empurrou o campo para a cidade

1975


A fotografia mostra um cafezal atingido pela geada de 1975. Fileiras inteiras aparecem queimadas pelo frio, transformando em poucos dias uma paisagem agrícola que por décadas havia sustentado a economia de Londrina e de grande parte do Norte do Paraná.

Na madrugada de 18 de julho daquele ano, os termômetros chegaram a 3,5 graus negativos e a geada atingiu de forma devastadora os cafezais da região. Londrina, que havia construído boa parte de sua prosperidade sobre o café, amanheceu diante de uma transformação que ultrapassava a agricultura.

Em texto de Nilson Monteiro e relato de Ricardo Kotscho, publicado na revista Helena, nº 1, no dia seguinte os jornais estimavam 850 milhões de pés de café queimados. Cerca de 400 milhões de cafeeiros seriam erradicados, deixando aproximadamente 150 mil trabalhadores sem emprego de forma imediata. O impacto foi ainda maior ao longo dos anos seguintes: o campo perdeu população e cerca de três milhões de paranaenses migraram para as cidades ou seguiram em direção a novas fronteiras agrícolas.

Essa mudança alterou também o perfil social de Londrina. A cidade que até então mantinha forte ligação direta com a vida rural passou a receber um contingente cada vez maior de trabalhadores deslocados do campo. A expansão urbana, a necessidade de novos bairros, serviços, empregos e infraestrutura passaram a responder também a esse processo.

A própria figura do boia-fria ganhou força nesse contexto. Já estava em curso transformações nas relações de trabalho rural, substituindo progressivamente parte das antigas colônias de trabalhadores residentes nas fazendas por mão de obra temporária. A geada de 1975 aprofundou esse movimento e marcou o fim de uma etapa da economia cafeeira regional.

O café não desapareceu completamente, mas perdeu a centralidade que possuía. Nas décadas seguintes, soja, milho e trigo ganharam espaço, enquanto Londrina consolidava sua economia urbana, comercial e de serviços.

Fontes: Revista Helena, nº 1, Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 2012, texto de Nilson Monteiro e relato de Ricardo Kotscho / Foto: R. Kretch, Acervo Museu Histórico de Londrina Paddre Carlos Weiss / Acervo Londrina Histórica.

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